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Curriculum Vitae Alternativo

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Há ocasiões em que me apetece mandar fazer uma t-shirt a dizer - trabalho precisa-se, com os respectivos contactos, sair para a rua, e assim mais uma vez mostrar ao mundo a minha disponibilidade laboral imediata.

 

 

por Sérgio Silva - Licenciado em Letras pela U. Coimbra

 

 

Há dias surgiu-me uma ideia que me parece uma verdadeira “pedrada no charco” para fazer um Curriculum Vitae. Os modelos que existem já estão muito gastos, e os dados neles presentes já são por demais conhecidos, isto no que à minha pessoa diz respeito, uma vez que já entreguei/enviei dezenas deles sempre com o mesmo resultado, pois claro.

            Assim à semelhança de Ambrósio, essa personagem mítica e símbolo de uma grande competência, “tomei a liberdade de pensar nisso”, utilizando um modelo assaz diferente. Começaria pelo estado mental, o qual classificaria de activo e permanentemente ávido de novos conhecimentos, sempre que tal se proporcione, e na actual situação sem dispender muitos cobres, como convém, dadas as contingências. Uma pergunta que teimam em me fazer é acerca de qualidades e defeitos. Um defeito que talvez me qualificasse seria uma certa cobardia, que passo a explicar. Perante as palavras do primeiro-ministro para que se emigre, confesso-me algo cobarde para aceitar o desafio de frente e continuo “a andar por aí”. Como bom português, claro que sou algo invejoso perante aqueles que manifestando a sua clara incompetência acedem a cargos de topo e por lá se mantêm “pelo séculos dos séculos”. Sou uma pessoa modesta e para mim escolheria um cargo mais “soft”, não sou particularmente dado a protagonismos, por vezes manifestações de simples estultícia. Por várias razões desde os valores pessoais que defendo e principalmente por nunca ter tido oportunidade de desempenhar tais cargos públicos não me sinto capaz de fazer um “desvio colossal” nas contas públicas, nesse ponto manifesto desde já a minha inaptidão crónica! Não sou dado a assenhorear-me das ideias ou quejandos alheios para daí tirar partido, tal soa a vil falta de carácter. Outra pergunta recorrente e muito falaciosa é o clássico – “porque se candidata a este trabalho”? Vale a pena responder a isto? A resposta é demasiado óbvia, porque tenho necessidade de comer e pagar as contas do dia-a-dia. Vem daí a necessidade de trabalhar e ser remunerado, o que infelizmente nem sempre acontece! Outra questão recorrente é – “o que podemos esperar de si”, ou uma variante “porque o devemos contratar a si?” A resposta é clara, mas convém mais uma vez referi-la. O espírito de equipa, a dedicação e o esforço, a capacidade de vestir a camisola e suar por ela, aliada ao sentido de responsabilidade bem como a pontualidade e a assiduidade que quem me conhece sabe que me definem, parecem-me suficientes para ser eu o escolhido. Uma qualidade que tenho inata é o bom humor, por vezes algo cobiçado por algumas pessoas que acham que deveria andar sempre triste e deprimido, ou pelo menos assim o deveria aparentar. Por entre os interstícios escrevo pois alguns artigos para o jornal. Escrevo também, algumas “nugae” (bagatelas), parafraseando Catulo, que alguns familiares e amigos simpaticamente apelidam de versos. Sou pessoa para saber citar os primeiros versos de “Os Lusíadas” de cor e algo mais como “melhor é experimentá-lo que julgá-lo; mas julgue-o quem não pode experimentá-lo”, Canto IX, 83 (7, 8), entre outros, tudo isto enquanto por vezes “as carnes me tremem” parafraseando a antítese “A Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, cuja leitura se recomenda viavamente! Dirá o caro interlocutor que tudo isto não importa nada para o cargo a que me pretendo de momento candidatar. É certo que “erros meus, má fortuna, amor ardente” (tal é discutível), me conduziram a este labirinto imenso, “esta apagada e vil tristeza” donde me é assaz difícil sair. Acredite o caro entrevistador que não é por falta de iniciativa e vontade que tal acontece. De seguida vou fazer referência a algumas características que tornam a minha candidatura única perante os demais. Sou experiente em entrevistas, entregar/enviar currículos é o meu forte! As respostas aos mesmos aguardo há muito por algumas, mas dada a fila de espera não devem estar para breve. Aguardemos pois com tranquilidade, “o povo é sereno, é só fumaça”. Confesso que tenho algumas características inatas e/ou adquiridas que me tornam singular. Não sei, à semelhança do Papa falar “n” línguas, ainda que seja crente q. b, julgo eu, sem ser fundamentalista. Tento não ser dogmático ou maniqueísta. Não sei falar nem escrever mandarim, japonês, crioulo, hebraico, ou russo, ainda que em tempos o tenha estudado, “arranho” o espanhol, e falo e escrevo fluentemente o português, “desenrasco-me” com o francês e o inglês e estudei mesmo latim e grego clássico. Não sou versado em java, oracle, ou que tais, mas sei teclar com alguma rapidez, ainda que por vezes escreva com erros, que espero talvez se diluam com o novo Acordo Ortográfico do qual não sou um convertido signatário.

Tenho hobbies que tento nos dias que correm se mostrem assaz baratos, entre eles ler e comprar livros, agora cada vez menos, o próprio espaço vai escasseando, e é também ele um entrave a que merque mais ainda. As caminhadas revelam-se uma boa alternativa a ginásios ou natação, que em tempos experimentei, mas que abandonei quando comecei a ver que começava “a meter água”. Sobra algum tempo, agora em demasia para o “otium cum dignitate” (o descanso honroso) e o teatro ou o cinema, cujos preços se revelam cada vez mais proibitivos. Comungo também de Nietzsche quando diz que “a vida sem música seria um erro”, e quão grande, diria eu. Procuro sempre que posso ir a conferências ou workshops, concertos, tarefa nem sempre fácil por motivos vários e que seria fastidioso de novo enumerar. Resta ainda tempo para alguns jantares com os amigos sempre que possível, para praticar a amena cavaqueira, rir faz bem à saúde, dizem que “é próprio do Homem”, e pode revelar-se perigoso, veja-se o caso do “Nome da Rosa”. Não tenho o cartão de militante de nenhum partido, já me disseram que tal seria “meio caminho andado” para alcançar um “tacho”, mas talvez de forma algo pueril vou resistindo a essa tentação. Por outro lado fico sempre com a ideia de que se me filiasse num, em breve outro chegaria ao Poder e teria que me filiar noutro e assim sucessivamente num verdadeiro “never ending story”… Recuso-me a entrar em programas televisivos de qualidade duvidosa para atingir os “15 minutos de fama”, que em breve desaparece, custa-me descer tão baixo…

Assim a busca de um emprego torna-se uma procura incessante de um “santo graal” assaz etéreo que persiste em me fugir por entre os dedos, pelos motivos mais fúteis como habilitações a mais ou falta de experiência, fim de contrato, entre outros. Este último merece um comentário particular, já que foi reconhecida a minha competência nas funções que exerci, mas agora não há concurso, por isso, nada feito - rua. Ora, por vezes dou comigo a pensar o que eu não daria para poder passar para o “outro lado da barricada” e conduzir a entrevista e poder ser eu a escolher os respectivos critérios de selecção.

Enfim, penso que sou uma pessoa bem formada, tirei um curso algo estranho para época à semelhança de Carlos da Maia, personagem do romance “Os Maias” na mesma reconhecida e reputada Universidade. Possuo já um número considerável de certificados de formações variadas que dariam com certeza para forrar as paredes do quarto, pode ser que algum dia tal aconteça! Não tenho dívidas ao fisco ou à segurança social, nem registo criminal. Tenho carta de condução de ligeiros, e até viatura própria, ainda que não saiba por quanto tempo.Tenho uma saúde, que não diria de ferro, esse enferruja, mas de cobre, o qual nos dias que correm é bem mais caro. Dou sangue sempre que posso, não para ficar isento de taxas moderadoras, mas numa demonstração de sincero altruísmo. Penso que a minha dádiva vale bem mais do que uma taxa moderadora, corrijam-me se estiver errado.

            Perante isto tenho alguns ódios de estimação como a estupidez natural crónica, a incompetência ou a vil ignorância associada a uma pretensa sabedoria e chico espertismo saloios como o que insistentemente se observa por aí…

Uma eterna fantasia assola os meus dias ao longo dos anos - dormir um pouco mais ao domingo de manhã, mera ilusão de criança, porque não se concretizou “jamé”, talvez um dia, quem sabe. Diria pois, que ao meu modo muito peculiar sou um resistente no sentido em que me recuso a baixar os braços e desistir, por vezes continuar a procurar trabalho é extremamente difícil. As inúmeras e muito infrutíferas “peregrinações” ao centro de emprego ou à net em busca de um trabalho que teima em não aparecer são por vezes muito desesperantes. Há ocasiões em que me apetece mandar fazer uma t-shirt a dizer - trabalho precisa-se, com os respectivos contactos, sair para a rua, e assim mais uma vez mostrar ao mundo a minha disponibilidade laboral imediata. Não diria que o meu lema de vida é: “a luta continua”, porque tal tem demasiadas conotações, mas que a vida é um combate diário, disso não tenho a mínima dúvida. Para finalizar um ideal, e agora permita-me abandonar a modéstia e pedir algo mais alto – “nascer pequeno e morrer grande”, nas palavras do Padre António Vieira, enfim, atingir a imortalidade, pois estou convencido que aí reside a suma ironia (que me é tão cara) para a alcançar em pleno, é necessário morrer…

Já vai longo este protocurrículo que supra nomeei de Curriculum Vitae alternativo, mas que me parece esclarecedor e que tem um pendor de originalidade que não passa pelo outro, respeite ele o modelo europeu ou algo mais pessoal. Assim cito Pessoa: “O mais que isto/ é Jesus Cristo, / que não sabia nada de finanças/ nem consta que tivesse biblioteca…”

Infelizmente os ecos que me chegam de viva voz ou por via indirecta levam-me a acreditar que existe muita gente em situações idênticas e a quem este Curriculum Vitae se poderia adaptar com algumas pequenas diferenças.

 

 

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